O caráter poético do sintoma

Caráter poético do sintoma

Psyche’s Dream, por Josephine Wall.

O que a constituição de um sintoma e a elaboração de um poema têm em comum? Um aspecto fundamental parece ser o caráter metafórico, que se torna possível pela supremacia do significante sobre o sujeito, de que nos fala Lacan em seu seminário As Psicoses. Foi nesta ocasião que abordou pela primeira vez a metáfora e a metonímia como recursos linguísticos muito adequados aos fenômenos estudados pela psicanálise, desde que se compreenda o caráter de metáfora do sintoma e o metonímico do desejo.

Este trabalho pretende ilustrar o quanto o processo de condensação no sintoma se assemelha ao da metáfora na poesia, e justificar um dos mais conhecidos aforismos psicanalíticos, formulado por Lacan: O inconsciente é estruturado como uma linguagem.

Pensando-se em uma relação entre poesia e psicanálise, podemos conceber que a supremacia dos significantes – aquilo que governa a pessoa que fala através de uma cadeia associativa sobre a qual não tem controle – serve a dois propósitos: no caso do sintoma, para aprisionar o sujeito, que se vê assaltado por uma “chuva de significantes” e se angustia, pois não consegue depreender daí nenhum sentido. As palavras transbordam, porém não lhe dizem o que fazer. Já na construção poética, o fato de o sujeito ser banhado por uma constelação de palavras que não consegue controlar é justamente o que lhe permite estabelecer uma ruptura com uma cadeia associativa conhecida e óbvia e libertar as palavras de seu sentido usual, fazendo emergir um sentido único de cada combinação de sons.

Freud, em seu artigo Consideração à representabilidade (A Interpretação dos Sonhos), expõe as transformações sofridas pelos pensamentos oníricos para que possam assumir a forma final do sonho. Ele afirma que existe uma mudança de expressão verbal dos pensamentos em jogo, de forma que de dois elementos isolados produz-se um, com características comuns a ambos (condensação). Impulsionados por um pensamento onírico persistente, os significantes relacionados a ele deslizam ao longo de uma cadeia de associações verbais de modo a se combinar, originando uma forma verbal final – que por sua vez dará suporte à imagem que aparece no sonho de maneira condensada, concreta.

Para Freud, os motivos pelos quais o inconsciente lança mão desse recurso de distorção dos enunciados que sustentam as imagens do sonho são evidentes: algo tornado pictórico, imagético, é passível de ser representado, ao passo que se as expressões verbais se mantiverem muito insípidas e abstratas, não vão conseguir condensar dentro de si os pensamentos oníricos mais determinantes do sonho.

Contudo, como diz o autor, não é apenas a representabilidade do sonho que tira proveito dessas condensações entre significantes, mas também a censura. O trabalho intermediário do sonho consiste em encontrar transformações verbais para os pensamentos isolados, para que nada de muito significativo fique disperso e facilmente “detectável” pela consciência. É por isso que o caráter de ambiguidade das palavras, dentro de um sonho, atende muito bem aos interesses da repressão. Freud associa este processo do sonho àquele que acontece na formação de um sintoma, devido à estratégia de disfarce aí subjacente: a transformação de enunciados antes genéricos e pouco expressivos em outros bastante ilustrativos dos conteúdos inconscientes mais ricos. Diz ele:

Não há por que nos surpreendermos com o papel desempenhado pelas palavras na formação dos sonhos. As palavras, por serem o ponto nodal de numerosas representações, podem ser consideradas como predestinadas à ambiguidade; e as neuroses (por exemplo, na estruturação de obsessões e fobias), não menos do que os sonhos, servem-se à vontade das vantagens assim oferecidas pelas palavras para fins de condensação e disfarce.

O autor afirma ainda que, no caso de um pensamento (expresso no sonho por seus significantes) possuir uma forma de expressão fixa, este irá atuar de forma preponderante e influenciará a seleção das expressões verbais dos demais pensamentos do sonho. Freud estabelece uma comparação muito propícia para se falar de poesia: diz que o mesmo processo acontece na elaboração de um poema, qual seja, o de que uma primeira imagem acústica associada a uma ideia, um primeiro som associado a um sentido será determinante de todo o resto do poema. Isto porque há duas condições para serem satisfeitas: os versos deverão expressar um sentido comum e também “ressoar” entre si, de modo que tal cuidado fique sutilmente sugerido a quem lê, e não explícito.

A partir do que afirma Freud sobre o caráter funcional que os deslocamentos verbais nos sonhos exercem em relação à condensação, podemos estabelecer uma similaridade com o que diz Lacan a respeito do papel fundamental que os deslocamentos metonímicos desempenham para que possamos chegar à metáfora. Ele nos fala de uma tendência notável por parte dos linguistas a dar ênfase sempre às metáforas, quando se trata de recursos linguísticos usados para fins poéticos. Ele defende firmemente a ideia de que os psicanalistas devem deixar de lado os simbolismos e a busca por uma “significação do sintoma” – ir em direção contrária àquela que quer fazer uma metáfora condensada a partir do sintoma do paciente. Há que se empreender o retorno aos significantes, que estão dispostos no discurso do sujeito, para que possa surgir a verdadeira dimensão do desejo deste, e o sentido que ele atribui ao seu sintoma.

Ilustração por Josephine Wall

A elaboração de um poema assemelha-se, em parte, a uma associação livre: em uma primeira etapa de construção, o poeta deixa-se levar pelo fluxo das palavras, dos significantes que lhe ocorrem na cabeça. A associação livre é denominada a regra fundamental da psicanálise. Assim como ela, a poesia também pode servir para fins de sublimação, isto é, pode transformar um sintoma. A diferença radical está no fato de que o poema terá que ser burilado depois, transformado em algo inteligível para quem lê, ao contrário do que se passa no divã: o analisante não está ali para provar coisa alguma ao analista.

A preponderância dos significantes na criação poética, sua autonomia, se revelam na metonímia. Só será possível fazermos metáfora se conseguirmos estar atentos à toda a lógica interna que rege os significantes, que faz com que se associem entre si e produzam sentido a partir de si mesmos, prescindindo de simbolismos e de significados exteriores a si.

A “mágica”, conforme dizem alguns poetas, acontece ali mesmo na dimensão dos sons e dos sentidos que emergem a partir deles, muito mais do que naquilo que eles significam – dimensão da semântica, da simbolização, do “querer dizer”. Mario Quintana, em sua prosa poética, pede-nos que nunca lhe perguntemos o assunto de um poema, porque um poema sempre fala de outra coisa. O assunto mesmo, por assim dizer, nunca está ali, em um significado pronto. Está na habilidade do poeta em despertar no leitor, através de uma combinação única de palavras, um sentido que já estava nele, à maneira do que transcorre em uma análise. O que o poeta oferece ao leitor não é nada mais do que aquilo que este vai conseguir captar, através da articulação dos significantes ali dispostos. Algo do sujeito vai emergir aí, a partir das palavras do poeta. De acordo com Lacan, a “transferência de significado”, que ocorre do poeta para o leitor, dá-se graças a uma rede organizada de modo complexo porém delicado, que sugere associações ao invés de as impor. Podemos, então, compreender por que o deslizamento dos significantes ao longo de uma cadeia associativa – fenômeno essencialmente metonímico – é tão necessário e caro à metáfora, ou seja, à poesia.

É precisamente o reconhecimento de que a dimensão dos significantes é muito maior do que aquilo que podemos apreender que permite ao sujeito fazer uma criação tal como a poesia, que pode servir muito bem como a sublimação de um sintoma que antes o paralisava. É uma boa maneira que o sujeito encontra de canalizar seu sintoma para algo criativo, produtivo, que lhe dá ganhos ao invés de ser um gasto psíquico torturante e vão. O que acontece no sintoma é o aprisionamento de um desejo, um não-reconhecimento, um estrangulamento deste. No processo poético, pelo contrário, o que ocorre é um extravasamento, a libertação de uma energia psíquica muito intensa que já não pode ser contida – e que, neste caso, é transformada em algo literalmente sublime.

Uma boa ilustração deste efeito de libertação da energia reprimida que a poesia provoca no sujeito, tanto naquele que escreve quanto naquele que lê, encontra-se no poema Poesia , de Carlos Drummond de Andrade:

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro,
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Assim como o sintoma é construído ao modo de uma metáfora, é também por meio de uma metáfora que o sujeito que escreve um poema pode pressentir uma libertação das conexões estanques entre os significantes, que tanto o sufocam e aprisionam, mas que foram por ele mesmo estabelecidas. De modo certeiro, Mario Quintana diz-nos que

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Além da metáfora, cabe mencionar outros recursos linguísticos que atendem simultaneamente à formação de um sintoma e a fins poéticos: aliterações, homofonias, sinestesias, onomatopeias, interpenetração de imagens, neologismos. Nestes últimos, encontra-se um brilhante exemplo de condensação, porém às avessas de um sintoma, uma vez que o neologismo representa a realização de um desejo por meio das palavras. Dá mostras de que o sujeito falante conseguiu estabelecer uma ruptura com as regras da gramática ou da norma culta e condensou dois sentidos diferentes em uma única palavra, fazendo emergir um novo som e novos sentidos. O surgimento de uma nova palavra por meio de um poema pode se assemelhar ao enfraquecimento de um sintoma: quanto mais as resistências do sujeito estiverem afrouxadas, mais ele vai conseguir estabelecer associações entre elementos verbais antes insuspeitadas.

 

Para fins de conclusão

Quem reconhece a imensidão das palavras, a infinitude de seu universo, pode ver-se livre para criar, e fazer poesia ao invés de sintoma. O recurso poético da metáfora pode até ser parecido com o recurso sintomático da condensação; entretanto, a principal diferença entre eles, que é também o que os associa tão intimamente, é que o sintoma é da ordem de um patológico, de um “não-saber-fazer-com”, enquanto que a criação poética vai em direção a uma cura, a uma transformação do sintoma, a um saberfazercom.

Há outro poema de Mario Quintana que parece apropriado para concluir este trabalho:

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
No maravilhado espanto de saberes
Que o alimento deles já estava em ti…

 

(Trabalho apresentado na Jornada Interna de apresentação dos trabalhos no dia 5 de dezembro de 2009, na Maiêutica Florianópolis Instituição Psicanalítica; e apresentado à disciplina Jacques Lacan no mesmo mês, no curso de Psicologia da UFSC).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund. Consideração à representabilidade. In: Obras Completas.
Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. V, pp.323-331

LACAN, Jacques. Metáfora e metonímia (I): “Sa gerbe n´était point Avaré, ni haineuse”. In: As Psicoses, seminário, livro III (1955-1956)

LACAN, Jacques. Metáfora e metonímia (II): articulação significante e transferência de significado. In: As Psicoses, seminário, livro III (1955-1956),

DOR, Joël. O valor do signo lingüístico e o ponto-de-estofo em Lacan. In: Introdução à leitura de Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, cap. 5, (pp 36-50) e cap. 10 (pp. 63-67)

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RUIZ, Alice. Desorientais. São Paulo: Iluminuras, 1998. 2 ed. p. 51

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ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 65

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: Drummond Frente e Verso; fotobiografia de Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Alumbramento / Livroarte, 1989. p. 143