Uma metáfora para o sintoma

Você já reparou como somos, desde cedo, “invadidos” pela linguagem?

De acordo com a psicanálise, o desenvolvimento de sintomas – físicos e psíquicos – é uma das consequências da incidência da palavra sobre o corpo. Fazer sintoma, assim, é uma das formas (inconscientes) que temos para lidar com essas marcas que a linguagem deixa em nós, desde crianças. Vale lembrar que a linguagem engloba os números, as palavras, os sons… E há também nossos traumas, que não são linguagem, mas se associam a ela, causando-nos devastação.

O sintoma é uma maneira que encontramos, inconscientemente, de nos “proteger” da intensa tempestade de linguagem em que vivemos, e também dos inevitáveis traumas que experimentamos ao longo da vida. Como um guarda-chuva resguarda-nos da tormenta, impedindo que nos molhemos, o sintoma poupa-nos de sofrer mais do que poderíamos aguentar, caso não fizéssemos sintoma. Nesse sentido, um sintoma é mais um aliado do corpo do que um inimigo. Conforme Freud, um sintoma é uma solução muito singular que cada sujeito encontra de fazer frente a seu excesso de angústia (como um escudo).

Aqui está uma ilustração-poema, chamada Irradiante, que transforma esse pedaço de teoria psicanalítica em imagem:

O sintoma é o guarda-chuva que nos protege contra a tempestade de linguagem e os raios dolorosos do trauma.

Fazer análise é uma boa maneira de lidar com as marcas que essa chuva, que esses raios deixam em nós.

Ouvimos frases que nos magoam.

Vivemos experiências que nos machucam.

Mas a ferida deixada pela linguagem não precisa arder para sempre.

Nem aquela deixada pela vida.

A tormenta, a tempestade um dia pode deixar de doer!

É nisto que a psicanálise aposta 🙂

 

O caráter poético do sintoma

Caráter poético do sintoma

Psyche’s Dream, por Josephine Wall.

O que a constituição de um sintoma e a elaboração de um poema têm em comum? Um aspecto fundamental parece ser o caráter metafórico, que se torna possível pela supremacia do significante sobre o sujeito, de que nos fala Lacan em seu seminário As Psicoses. Foi nesta ocasião que abordou pela primeira vez a metáfora e a metonímia como recursos linguísticos muito adequados aos fenômenos estudados pela psicanálise, desde que se compreenda o caráter de metáfora do sintoma e o metonímico do desejo.

Este trabalho pretende ilustrar o quanto o processo de condensação no sintoma se assemelha ao da metáfora na poesia, e justificar um dos mais conhecidos aforismos psicanalíticos, formulado por Lacan: O inconsciente é estruturado como uma linguagem.

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Ser adolescente, estar na escola

Ser adolescente, estar na escola

Por Clara Schmidt da Cruz

A adolescência é um período decisivo em nossas vidas. É ali que fazemos nossas primeiras escolhas autônomas frente aos pais, e iniciamos um processo de diferenciação em relação a eles que durará a vida toda.

Quando somos crianças, o pai e a mãe são nossos maiores ídolos, queremos ser iguais a eles. Essa primeira referência é muito importante, pois nos espelhamos neles para engendrar a pessoa adulta que seremos. No entanto, na adolescência, essa identificação entra em “crise” e passamos a sentir necessidade de iniciar nosso processo de individuação, de nos tornarmos alguém para além dos papeis que desempenhamos dentro de casa. Por isto amadurecer pode ser doloroso: porque implica consentir em nos separarmos emocionalmente de pessoas que são muito importantes para nós, e com as quais, desde a infância, nos acostumamos a concordar sem questionar, já que acreditamos que elas sempre sabem o que é melhor para nós.

Crescer significa, portanto, ter que aprender a se posicionar em relação às pessoas (em especial pais e irmãos) de uma forma madura, isto é, fazer com que sua voz seja ouvida, porém sem desrespeitar o outro. Esse é um desafio enorme, para o qual estamos sempre nos preparando, em qualquer fase da vida.

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Ato falho e outros tropeços

Ato falho e outros tropeços

Alerta: este texto cita temas como homicídio e suicídio. Se você é sensível a esse tipo de conteúdo, sugiro que avance com cuidado ou procure entre outros textos do blog assuntos que reflitam melhor seu estado emocional.

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O assunto de hoje são as manifestações do inconsciente. Mais especificamente as seguintes: ato falho, acting out, crise de angústia e passagem ao ato. A linha que costura todos esses conceitos é a angústia, e por isso ela será explorada em um crescendo: do ato falho à passagem ao ato.

Em primeiro lugar: o que são essas manifestações do inconsciente?

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Poesia e psicanálise

poesia

Sabe aqueles sentimentos que preferimos deixar submersos em nossas profundezas?

A psicanálise e a poesia ensinam-nos o que fazer com eles, e conduzem-nos a um belo lugar: não ter medo de sentir, seja lá o que for.

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após a tempestade

 

chuva-de-palavras-3

 

Vamos ser honestos, o que nós somos é:
sobreviventes
de um dilúvio de palavras.

Foram elas, elas!
Que destruíram nossas barragens
que destelharam nossas almas.
As palavras.

Somos náufragos ao contrário!
Foi da chuva, e não do mar,
que vieram as palavras
que por pouco não nos engoliram…

Então vamos diluir esse dilúvio.
Pra que ele seja
menos consistente
menos espesso.
Vamos pingar gotas de água
nessa tinta densa
nesse oceano bruto.

Nesse mar de palavras
de um dizer absoluto.

 

(Clara Cruz)

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Conheça outros poemas no meu Blog de poesia.

Ciúme: um sentimento para não pôr no currículo

Ciúme

Por Clara Cruz

 

Você já reparou como todo mundo demoniza o ciúme?
Talvez por ser uma das sensações mais dolorosas que existem, o fato é que temos muita dificuldade de assumir que o sentimos.
Quando fica evidente, nos apressamos em negá-lo.
“Não é ciúme, é ___”.
“Eu não diria que é ciúme”.
“Acho que ciúme não é a palavra”.
E por aí vai.

É, é difícil de confessar.
E por quê?
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Angústia, a outra face do desejo

Angústia

A angústia é o invólucro do desejo.

Dentro de nossa angústia está contido o que mais queremos. Não nos sentimos angustiados a não ser por algo que realmente nos pertence, nos afeta, desperta nossos sentimentos mais fortes.

Por exemplo: quero muito estudar Artes Plásticas, porém meus pais gostariam que eu cursasse Direito.
Inscrevo-me, então, para prestar vestibular para esse curso.
Convenço-me de que Direito é o melhor para mim.
Dedico-me ao máximo aos estudos, preparo-me.
No dia da prova, apesar de ter as matérias todas na ponta da língua, sou tomada por uma imensa insegurança, que me impede de fazer o teste, e acabo reprovando no vestibular para o curso que eu achava que tanto queria.

O que aconteceu ali?

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Sobre pássaros e dragões

Pássaros e dragões

Por Clara Cruz

É chegado o momento de enfrentarmos nossos dragões.

Vocês sabem quem eles são: aqueles bichos feios, medonhos, que moram dentro de nós.

 
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A infância é um baú de palavras

A infância é uma baú de palavras.

Por Clara Cruz

Você já reparou que a palavra criança tem a mesma origem de criação?

Essa semelhança evidencia a criatividade que irradia de ser criança. Mas, depois de termos sido criados, não deixamos de criar. É o que desejo propor aqui: a compreensão do conceito de criança não como um período da vida, mas como um espaço de intimidade do sujeito consigo mesmo, que pode durar a vida inteira.

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