Ato falho e outros tropeços

Ato falho e outros tropeços

Alerta: este texto cita temas como homicídio e suicídio. Se você é sensível a esse tipo de conteúdo, sugiro que avance com cuidado ou procure entre outros textos do blog assuntos que reflitam melhor seu estado emocional.

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O assunto de hoje são as manifestações do inconsciente. Mais especificamente as seguintes: ato falho, acting out, crise de angústia e passagem ao ato. A linha que costura todos esses conceitos é a angústia, e por isso ela será explorada em um crescendo: do ato falho à passagem ao ato.

Em primeiro lugar: o que são essas manifestações do inconsciente?

São falas, sensações e atos que aparecem contra nossa vontade consciente, revelando verdades que muitas vezes gostaríamos de esconder de nós mesmos e dos outros.

I

Vamos começar pelo mais conhecido de todos, o primeiro degrau da escada da angústia: o ato falho.

É aquela ocasião em que queremos dizer o nome de uma pessoa e trocamos pelo nome de outra. Dá vergonha: ali não controlamos o que acabamos de dizer. Os atos falhos aparecem bastante no cotidiano, também sob outras roupagens: os esquecimentos, por exemplo. De objetos, compromissos, nomes, palavras, acontecimentos, recordações… É aquele “branco” que dá de repente. Quem nunca passou por isso? Também é ato falho quando dizemos um pouco mais do que queríamos – e depois ficamos constrangidos. No ato falho, a vergonha pode vir acompanhada de uma angústia, que, no entanto, costuma ser moderada e controlável, provavelmente por ser tão cotidiana.

II

Vamos subir para a próxima manifestação do inconsciente. O degrau seguinte da escada da angústia: o acting out.

O acting out consiste em fazer coisas impulsiva e irrefletidamente, coisas que na verdade não se queria fazer. Ir a lugares aos quais não queríamos ir, estar com pessoas com quem não queríamos estar, falar com ou ligar para pessoas com quem não queríamos falar. Se você pensou em “coisas de bêbado”’, acertou! Uma pessoa em estado alcoolizado fica muito mais propensa a realizar acting outs, já que o acting é uma produção do inconsciente e quando se bebe o inconsciente vem à tona com toda a sua força. A angústia decorrente de um acting costuma ser bem maior do que aquela desencadeada pelo ato falho, já que seus efeitos são menos reversíveis – uma vez que um ato está feito, não há como ser desfeito. Perceba que, geralmente, a força de um ato (acting out) se sobrepõe à força de uma fala (ato falho).

Se formos comparar o ato falho e o acting em termos de quanto prejuízo cada um pode trazer para quem os comete, podemos dizer que o primeiro está na esfera do “não conseguir fazer”, do “erro”; enquanto o segundo é mais da ordem do “fazer em excesso”, do “fazer além do que se gostaria”. O ato falho dá vergonha – é como alguém tropeçar em seus próprios pés. O acting out traz arrependimento – é como um copo que transborda.

III

O degrau seguinte é a crise de angústia.

Você já se sentiu angustiado de uma forma extrema, insuportável, a ponto de ficar imobilizado e não conseguir fazer nada além de sofrer? Como se o tempo tivesse congelado, e você estivesse preso em um determinado momento, sem poder sair dele, nem respirar ou dormir? Então você já passou por uma crise de angústia, e sabe como ela é: paralisante. Quando um episódio assim ocorre, o que nos domina é o medo e a nítida sensação de estarmos fazendo, ou estarmos prestes a fazer, algo de muito errado e contraditório em nossas vidas – algo que caminha na direção completamente oposta ao nosso desejo. É nessa hora de angústia, em que estamos sufocados, que precisamos parar o que estamos fazendo, respirar profundamente e escutar o que o desejo nos diz, através do corpo. Vale lembrar que o corpo é sábio.

Parar e prestar atenção:
é isso mesmo que eu quero fazer?
Ou estou fazendo isso para agradar alguém?
Será que não é hora de parar de fazer o que não gosto,
e fazer o que eu realmente desejo?

IV

Por fim, no nível último da angústia, existe a passagem ao ato.

A passagem ao ato é sem dúvida a manifestação do inconsciente mais angustiante de todas, a mais extrema. Como exemplos mais comuns há o suicídio, o homicídio, o homicídio seguido de suicídio e o assassinato em série. É claro que, felizmente, não são todas as pessoas que possuem um psiquismo capaz de realizar esses atos extremos. Quanto às que possuem, é possível dizer que a angústia ali chegou a tal ponto que já não é mais passível de controle. Inclusive, uma das maneiras que a psicanálise tem para diferenciar o que é acting out e o que é passagem ao ato é esse grau de controle da situação, de sua reversibilidade. No acting, por se tratar de uma manifestação mais branda dos impulsos do inconsciente, seus efeitos, muitas vezes, são reversíveis. As consequência não são tão graves. Já na passagem ao ato, pelo fato de que a escala da angústia está no seu ponto mais elevado e seus atos são extremamente destruidores, seus efeitos são irreversíveis.

Ao aspecto da reversibilidade se enlaça um segundo ponto em que acting out e passagem ao ato se diferenciam: o que o sujeito angustiado espera do outro. No acting, sofre-se muito, pois se trata de uma autossabotagem: uma reedição de algo ruim que o sujeito, embora já cansado de fazê-lo, ainda assim repete, sem saber por quê. No entanto, existe ali um pedido de ajuda: a pessoa realiza esse ato repetitivo como que para pedir socorro a alguém, para convocar o outro, “por favor, estou sofrendo, tire-me daqui, me ajude a parar de repetir esta cena que me faz sofrer”. É um pedido de análise, de intervenção. O sujeito vislumbra a morte de relance, porém, não desiste da vida, não se entrega. Ainda espera coisas de si e do outro.

Na passagem ao ato, contudo, o que se vive é uma experiência de morte subjetiva: não se pede mais qualquer socorro, não se espera por mais nada nem ninguém. É como uma pessoa resignada que se deixa afogar. O sujeito está tão angustiado que não há mais por quê pedir ajuda, já que não confia em ninguém e não acredita mais na vida. Não havendo mais demanda de análise, nem de nada, o sujeito “se rende”, oferecendo-se como um objeto a uma força autodestruidora que, neste ponto, já está incontrolável.

É importante ressaltar que, na passagem ao ato, a pessoa involuntariamente se anula enquanto SUJEITO DO SEU PRÓPRIO DESEJO (deixa de fazer as escolhas que considera certas para si) em favor dessa força mortífera que sente como muito maior do que ela.

No acting out, também existe um contato com a “morte”, mas é só metafórico. A pessoa comete um ato, geralmente não grave, do qual se arrepende e por isso fica devastada. E termina por aí. Na passagem ao ato, contudo, a pessoa vai além e caminha decidida em direção à morte (morte concreta, muitas vezes).

Essas são as passagens ao ato mais graves, as mais extremas que uma pessoa pode cometer. Mas existem também as mais “leves”, como quaisquer atos que a pessoa, mesmo sabendo que são danosos, não consegue deixar de fazer. O melhor exemplo são os sintomas neuróticos (assunto para um próximo texto). Eles podem ser considerados mini-passagens ao ato, já que também possuem efeitos de mortificação do sujeito e de seu desejo. Uma verdadeira “morte” em vida.

E como a passagem ao ato é a morte do desejo, cabe remarcar que o desejo é um dos conceitos mais caros à psicanálise. Tornar-se responsável pelas próprias escolhas é o objetivo mesmo de uma análise, pois não existe nada mais vivificador do que assumir as rédeas da nossa vida…

 

Assumindo as rédeas

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Quem faz análise tem muita história para contar sobre todas essas modalidades de irrupção do inconsciente, os quatro degraus da angústia abordados neste texto.

Fazer análise e chegar a domar minimamente o próprio inconsciente é mais do que gratificante: é como finalmente ler o manual de instruções da espécie humana. A mais prazerosa conquista. Um verdadeiro triunfo.

Afinal, quem sente na própria pele os efeitos destruidores de alguns acting outs, crises de angústia e iminências de passagem ao ato… sabe o valor que tem fazer uma análise. O valor de ter um espaço para o inconsciente FALAR, e até mesmo “berrar”, “espernear” o quanto quiser. Para não sair por aí “falando” onde não deve e sabotando esta nossa vida que pode ser tão bonita, se conseguirmos nos livrar de nossas “malditas” repetições!

Nunca nos esqueçamos de que o inconsciente é uma criança carente: precisa ser educada com paciência e amor. E que lugar melhor para fazer isso do que em um divã?