Angústia, a outra face do desejo

Angústia

A angústia é o invólucro do desejo.

Dentro de nossa angústia está contido o que mais queremos. Não nos sentimos angustiados a não ser por algo que realmente nos pertence, nos afeta, desperta nossos sentimentos mais fortes.

Por exemplo: quero muito estudar Artes Plásticas, porém meus pais gostariam que eu cursasse Direito.
Inscrevo-me, então, para prestar vestibular para esse curso.
Convenço-me de que Direito é o melhor para mim.
Dedico-me ao máximo aos estudos, preparo-me.
No dia da prova, apesar de ter as matérias todas na ponta da língua, sou tomada por uma imensa insegurança, que me impede de fazer o teste, e acabo reprovando no vestibular para o curso que eu achava que tanto queria.

O que aconteceu ali?

Minha angústia traiu meu esforço nos estudos. Surgiu para apontar que não era essa minha escolha genuína. Meu desejo apontava para a direção oposta. Eu tinha vontade de fazer Artes. O que meus pais querem para mim não é o mesmo que eu quero.

A angústia surge para pararmos de mentir para nós mesmos.
O melhor caminho é o que escolhemos seguir, ele não pode ser decidido por outras pessoas.

Por essa razão, pode-se dizer que temos dentro de nós um “GPS para a vida” muito certeiro: a bússola angústia-desejo. Um não vive sem o outro.

Quando sentir angústia, escute: ela está sussurrando o seu desejo. Basta olhá-la pelo revés e você vai se deparar com aquilo que precisa saber sobre você mesmo.

Angústia como porta de entrada para a análise

Portas, por Tin Can Radio.

Portas, por Tin Can Radio

Diz-se, na psicanálise, que a angústia é o afeto sem objeto.

Ela não mira um alvo. É generalizada.
Quando nos angustiamos, somos envolvidos por um desconforto que abrange várias áreas de nossa vida, e de repente parecemos não ter controle sobre nós mesmos – nosso corpo e nossos pensamentos.

Todos passamos por isso de vez em quando.
É como se nosso peito estivesse inchado de choro não chorado, de palavras não ditas.
Como se nossas lágrimas fossem poucas para expulsar todo o sofrimento que está em nós.
Essa angústia “pura”, anterior a um trabalho de análise, é nosso corpo se manifestando em toda a sua intensidade. Dá para dizer que é a dor em estado bruto. É uma sensação que ainda não foi atravessada por palavras, ainda não se falou sobre ela. Dói porque não há palavras para defini-la.

 

O que será que significa esse aperto no peito, esse choro?
Não sabemos.

Nesses momentos, somos um corpo que sofre sozinho, sem saber por quê.

Para cada um descobrir o porquê de sua angústia, é preciso que deseje se investigar.

 

Baú, por Flávia Aguilera

Baú, por Flávia Aguilera

Ao buscar um(a) psicanalista, é comum que a pessoa esteja “perdida”, não saiba o que fazer da vida. Muitas vezes, está distanciada das coisas que lhe dão prazer, perdeu-se do seu desejo. A angústia entrou no lugar do que antes lhe motivava.

É ali, naquele espaço de análise, que cada um começa a pôr seu sofrimento em palavras, a fazer elaborações a respeito do que lhe causa mal-estar. São hipóteses que, pouco a pouco, vão dando contornos ao sofrimento que antes era “cego” – total. O “monstro da angústia” passa a ter outra cara, a ser menos ameaçador, e até controlado.

Então, o sujeito começa a prestar atenção naquilo de que gosta, de que não gosta, no que lhe dá medo, no que deseja…

 

A angústia serviu de porta de entrada para a conversa mais honesta que a pessoa poderia ter consigo mesma.

 

Em análise, a dor já não está em estado bruto. O corpo já não sofre sozinho. Já se deixa atravessar por palavras – as do próprio analisante e as do analista.

Uma importante descoberta da psicanálise é que a angústia, se verbalizada e devidamente escutada, permite à pessoa sentir-se menos só.

Quando somos compreendidos, estamos acompanhados. De nós mesmos, de nossos sentimentos. Saber quem somos dá uma enorme segurança.

Desse modo, aquela sensação angustiante, que parecia tão devastadora, acaba orientando a pessoa rumo a seu desejo. O questionamento que surge a partir do “sentir-se angustiado” leva cada um às portas certas: as perguntas que revelarão um saber sobre si mesmo.

 

Afinal, quem sou eu?

O que quero para minha vida?

Quem são as pessoas com quem realmente me importo?

Por que às vezes faço o exato oposto daquilo que desejo?

 

Essas questões são belas portas de entrada para o inconsciente, para o saber inconsciente que cada um tem sobre si. Portanto, têm tudo a ver com a psicanálise, pois esta pode ser assim definida:

A aposta de um diálogo entre a consciência e o inconsciente, entre a criança que nós fomos e o adulto que nós somos.

A bonita aposta de que, se aceitarmos nosso inconsciente e nossos aspectos infantis, mais tranquilos estaremos.

Nos sabotaremos menos
e teremos mais desejo de viver.

 

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Créditos para a imagem da capa: Paula Bonet.